segunda-feira, 30 de agosto de 2010
Medo
Tenho medo.
Tenho muito medo.
É patológico, acompanha-me
todos os dias.
Tenho medo do passado
que me visita,
da criança que fui
e ainda sou.
Das pessoas nas ruas,
da escuridão,
dos monstros.
Tenho medo do presente
que me escapa,
do homem que sou
e que deixo de ser.
De decepcionar
minha mãe,
de não ser um bom
mestre
(e um péssimo aprendiz).
Tenho medo do futuro
que me apavora,
de não saber amadurecer.
De não crescer
e continuar sendo
um medroso.
Tenho medo...
Ai, como tenho medo!
Tenho medo que as lágrimas
me impeçam de seguir
estes versos,
distorcendo as letras
e molhando a tinta.
Tenho medo de não ser
para minha mulher
um bom amante e amigo.
Tenho medo de não ser
um bom filho,
um bom irmão.
Tenho medo de não ser
um bom companheiro.
Como tenho medo!
Covarde! Paranoico!
Tenho medo de mostrar-me
como homem.
Tenho medo da minha imagem!
Ai...
Tenho medo de ser poeta,
tenho medo de ser escritor,
tenho medo de beijar,
abraçar,
viver.
É irracional
e ao mesmo tempo
a razão para meu
calabouço
que construí.
Ai, tenho muito medo de mim!
Tenho muito medo.
É patológico, acompanha-me
todos os dias.
Tenho medo do passado
que me visita,
da criança que fui
e ainda sou.
Das pessoas nas ruas,
da escuridão,
dos monstros.
Tenho medo do presente
que me escapa,
do homem que sou
e que deixo de ser.
De decepcionar
minha mãe,
de não ser um bom
mestre
(e um péssimo aprendiz).
Tenho medo do futuro
que me apavora,
de não saber amadurecer.
De não crescer
e continuar sendo
um medroso.
Tenho medo...
Ai, como tenho medo!
Tenho medo que as lágrimas
me impeçam de seguir
estes versos,
distorcendo as letras
e molhando a tinta.
Tenho medo de não ser
para minha mulher
um bom amante e amigo.
Tenho medo de não ser
um bom filho,
um bom irmão.
Tenho medo de não ser
um bom companheiro.
Como tenho medo!
Covarde! Paranoico!
Tenho medo de mostrar-me
como homem.
Tenho medo da minha imagem!
Ai...
Tenho medo de ser poeta,
tenho medo de ser escritor,
tenho medo de beijar,
abraçar,
viver.
É irracional
e ao mesmo tempo
a razão para meu
calabouço
que construí.
Ai, tenho muito medo de mim!
Fábio Pedro Racoski
sábado, 28 de agosto de 2010
Paixões
Na adolescência,
é intensa, é eterna,
é única, é bandida e justa.
Na juventude,
é noite, é momento,
é uma, é quente e rebelde.
Quando adultos,
é sol, é longa,
é esporádica, é civil e religiosa.
Na madurez,
é saudade, é última,
é sempre, é mínima e máxima.
Na vida,
é suor, é fogo,
é memória, é amor e ódio.
Dance to the end of love - Leonard Cohen
é intensa, é eterna,
é única, é bandida e justa.
Na juventude,
é noite, é momento,
é uma, é quente e rebelde.
Quando adultos,
é sol, é longa,
é esporádica, é civil e religiosa.
Na madurez,
é saudade, é última,
é sempre, é mínima e máxima.
Na vida,
é suor, é fogo,
é memória, é amor e ódio.
Fábio Pedro Racoski
Dance to the end of love - Leonard Cohen
sábado, 21 de agosto de 2010
Velho e nova
Velhos são os olhos que te veem.
Velhos são os prédios que te rodeiam.
Velhas são as paredes que te guardam.
Velho é o mundo que te cumprimenta.
Velha é a noite que te nina.
Velho é o sol que te aquece.
Velha é a lua que te ilumina.
Velha é a rua que por ti é massageada.
Velhas a cidade, as praças,
a criança a brincar no parque,
as bandeiras, as imagens,
velhos os quadros...
Mas tu... Não.
Tu não és velha. Nunca serás.
Velhas são as notas musicais
e as palavras
usadas para tentar
versejar
essa tua beleza
tão nova,
tão surpreendente
e ansiosamente
inesperada.
Velhos são os prédios que te rodeiam.
Velhas são as paredes que te guardam.
Velho é o mundo que te cumprimenta.
Velha é a noite que te nina.
Velho é o sol que te aquece.
Velha é a lua que te ilumina.
Velha é a rua que por ti é massageada.
Velhas a cidade, as praças,
a criança a brincar no parque,
as bandeiras, as imagens,
velhos os quadros...
Mas tu... Não.
Tu não és velha. Nunca serás.
Velhas são as notas musicais
e as palavras
usadas para tentar
versejar
essa tua beleza
tão nova,
tão surpreendente
e ansiosamente
inesperada.
Fábio Pedro Racoski
quarta-feira, 11 de agosto de 2010
Zé Curitibano
Tenho que gostar de futebol.
Tenho que gostar de feijão.
Tenho que gostar de calor,
praia, samba e suor.
Tenho que cultivar hábitos exagerados.
Tenho que usar frases de efeito
da última moda.
Tenho que sorrir e chorar
com os vídeos piegas que exaltam
a pátria.
Tenho que fazer piadas
com outros povos
e fazer política de guerra
quando a piada
somos nós.
Tenho que amar o Brasil
sem criticar,
sem questionar,
vivendo na máscara inerte
do folião eterno.
Ah, dogmas...
Como quero senti-los
esvaindo em sangue
nas minhas mãos...
Fábio Pedro Racoski
segunda-feira, 9 de agosto de 2010
quarta-feira, 4 de agosto de 2010
Esporte bufão
Futebol.
Um esporte coletivo
jogado por 11 egoístas
em cada equipe.
Futebol.
Um esporte de humildes
milionários
e empresários déspotas.
Futebol.
O pão, o circo,
a política, a república,
o desejo, a alegria,
o bufão, torcedor.
Um esporte coletivo
jogado por 11 egoístas
em cada equipe.
Futebol.
Um esporte de humildes
milionários
e empresários déspotas.
Futebol.
O pão, o circo,
a política, a república,
o desejo, a alegria,
o bufão, torcedor.
Fábio Pedro Racoski
Canção ao frio (maroz, maroz)
Ai, maroz, maroz,
tu me matarás?
Congelado assim
não posso ter paz.
Congelado assim
não posso ter paz.
Ai, maroz, maroz,
tu me matarás?
Sob meu cobertor
muito calor há.
Mas se tu congelas,
ele não será.
Se tu me congelas,
nem posso beijar.
A pedra de gelo
irá me esquentar.
A pedra de gelo
frio sentirá.
Teu sopro, maroz
a torturará.
Me torturará
teu sopro, maroz.
Teu clima é denso
qual doce de arroz.
Ai, maroz, maroz,
tu me matarás?
Congelado assim
não posso ter paz.
Fábio Pedro Racoski
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Este poema não é uma tradução, senão uma melodia para a canção folclórica russa, "Moroz, moroz". A palavra moroz (pronunciada, mais ou menos, "maroz") é o nome que se dá ao tempo frio e congelante.
Os dois últimos versos de cada estrofe se repetem, na canção.
quinta-feira, 29 de julho de 2010
O espelho
Eva olhava-se no espelho. Usava bastante de seu tempo para ver aquele rosto que não desejava: a cicatriz feita pelo seu ex-namorado com uma faca de cozinha ainda doía. Não no rosto, mas na alma. Uma triste cicatriz retilínea, uniforme, cirúrgica, transcorrendo o percurso entre a narina direita e a bochecha, também à direita.
Eva não perdoaria nunca o Juca, seu ex-namorado. Não por tê-la cortado o rosto, mas por não matá-la, já que preferia estar morta do que viver com esta face macabra. Deixou de estudar assim que seus colegas de turma lhe puseram o apelido “scarface”. Já não saía de casa há muito tempo. A vida para Eva era pior que qualquer pesadelo infernal. Tudo o que ela queria era ter uma vida nova, retroceder estes dias e viver à sua maneira: uma nova chance que o espaço-tempo nunca lhe daria.
“Vem comer, Eva. O almoço tá na mesa!”, grita Edwiges, sua mãe, ao pé da escada. Foi o som que despertou Eva de seus devaneios em frente ao espelho. Desceu a escada em passos medidos, como sempre. Verificou se sua mãe não havia convidado ninguém para almoçar – mania maternal que deixava Eva muito irritada –, viu que só estavam ali ela, sua mãe e Desdêmona, sua gata. Sentou-se para comer. Qual a sua surpresa que, depois de meses, Edwiges fez batatas fritas, a comida dos sonhos eternos de Eva. “Ah, Dona Edwiges, não precisava!”, dizia (na verdade, precisava sim).
As duas conversavam e o morro de batatas fritas entre elas diminuía lentamente. Edwiges não ousava falar dos traumas de sua filha e da necessidade de superá-los, apesar de querer muito. Eva não ousava perguntar sobre a visita de sua mãe à mãe do Juca e a tristeza daquela, apesar de querer muito. Então, conversavam sobre novela, política, metafísica, filosofia, chocolate, física quântica. Edwiges falava daquela casa, abrigo da família há gerações e que, dizem, guarda mistérios. Eva falava que isso era conversa, história para impressionar criança.
“Mas sabe, Eva, seu bisavô dizia que o espelho do sótão é mágico...” dizia, crédula, Edwiges. “Bobagem, mãe! Aquele espelho me deixa bonita, por acaso?” dizia, cética, Eva. Cética mas incomodada com aquelas palavras, inéditas para ela. Pensava no espelho lá no sótão e as horas que gastava em frente a ele, remoendo lembranças dolorosas. Pensava o quanto aquele espelho a ajudava a pensar. Mas sabia que o mundo gosta de fazer coincidências para confundirmos com destino ou mágica.
Depois de dar boa noite à sua mãe, Eva subiu para o sótão. Lá, ficou novamente encarando o espelho, pensando em como seria sua vida se não tivesse conhecido o Juca. Mas aí entrou um elemento novo à sua quimera: as palavras de seu bisavô repetidas por sua mãe. Olhava para o espelho e, desta vez, sentia como se o espelho olhasse para ela também. Encarava sua imagem refletida que, agora, parecia ter vida própria. Humanamente, quis tocar sua mão com o reflexo e, neste instante, viu um grande clarão, sentiu-se desmaiar e lembrou-se subitamente do que havia apagado de sua memória: a noite em que Juca a cortou.
Parecia estar lá, novamente, como se tivesse voltado no tempo. A discussão, o hálito impregnado de cachaça na boca do Juca, o exato momento em que pegou a faca. Sabia o que ia acontecer, segundos depois, minutos, horas, dias, anos depois. “Vou rasgar tua cara, vagabunda!”, repetiu ou disse pela primeira vez Juca, Eva não sabia ao certo. Como se tudo estivesse em câmera lenta, Eva pegou uma chave de fenda, daquelas compridas. Assim que recebeu o golpe de Juca em seu rosto, Eva enterrou a ferramenta no peito do namorado. “Você conseguiu mudar tudo, né, vagabunda?”, disse Juca sua última frase, já na verdade-epifania dos mortos.
Eva viu novamente um clarão. Desmaiou. Acordou estranhamente de pé, no sótão. Olhava-se no espelho. Usava bastante de seu tempo para ver aquele rosto que, apesar de tudo, desejava: a cicatriz feita pelo ex-namorado com uma faca de cozinha já não doía. Nem no rosto, nem na alma. Uma ínfima cicatriz assimétrica, até mesmo charmosa, transcorrendo o percurso entre a narina esquerda e o lábio superior. Também não doía sua consciência por ter enterrado uma chave de fenda no peito de Juca, tirando-lhe a vida. “Legítima defesa!”, repetia a si mesma. Legítima defesa de sua vida, sua honra, sua dignidade, seu universo.
Eva não perdoaria nunca o Juca, seu ex-namorado. Não por tê-la cortado o rosto, mas por não matá-la, já que preferia estar morta do que viver com esta face macabra. Deixou de estudar assim que seus colegas de turma lhe puseram o apelido “scarface”. Já não saía de casa há muito tempo. A vida para Eva era pior que qualquer pesadelo infernal. Tudo o que ela queria era ter uma vida nova, retroceder estes dias e viver à sua maneira: uma nova chance que o espaço-tempo nunca lhe daria.
“Vem comer, Eva. O almoço tá na mesa!”, grita Edwiges, sua mãe, ao pé da escada. Foi o som que despertou Eva de seus devaneios em frente ao espelho. Desceu a escada em passos medidos, como sempre. Verificou se sua mãe não havia convidado ninguém para almoçar – mania maternal que deixava Eva muito irritada –, viu que só estavam ali ela, sua mãe e Desdêmona, sua gata. Sentou-se para comer. Qual a sua surpresa que, depois de meses, Edwiges fez batatas fritas, a comida dos sonhos eternos de Eva. “Ah, Dona Edwiges, não precisava!”, dizia (na verdade, precisava sim).
As duas conversavam e o morro de batatas fritas entre elas diminuía lentamente. Edwiges não ousava falar dos traumas de sua filha e da necessidade de superá-los, apesar de querer muito. Eva não ousava perguntar sobre a visita de sua mãe à mãe do Juca e a tristeza daquela, apesar de querer muito. Então, conversavam sobre novela, política, metafísica, filosofia, chocolate, física quântica. Edwiges falava daquela casa, abrigo da família há gerações e que, dizem, guarda mistérios. Eva falava que isso era conversa, história para impressionar criança.
“Mas sabe, Eva, seu bisavô dizia que o espelho do sótão é mágico...” dizia, crédula, Edwiges. “Bobagem, mãe! Aquele espelho me deixa bonita, por acaso?” dizia, cética, Eva. Cética mas incomodada com aquelas palavras, inéditas para ela. Pensava no espelho lá no sótão e as horas que gastava em frente a ele, remoendo lembranças dolorosas. Pensava o quanto aquele espelho a ajudava a pensar. Mas sabia que o mundo gosta de fazer coincidências para confundirmos com destino ou mágica.
Depois de dar boa noite à sua mãe, Eva subiu para o sótão. Lá, ficou novamente encarando o espelho, pensando em como seria sua vida se não tivesse conhecido o Juca. Mas aí entrou um elemento novo à sua quimera: as palavras de seu bisavô repetidas por sua mãe. Olhava para o espelho e, desta vez, sentia como se o espelho olhasse para ela também. Encarava sua imagem refletida que, agora, parecia ter vida própria. Humanamente, quis tocar sua mão com o reflexo e, neste instante, viu um grande clarão, sentiu-se desmaiar e lembrou-se subitamente do que havia apagado de sua memória: a noite em que Juca a cortou.
Parecia estar lá, novamente, como se tivesse voltado no tempo. A discussão, o hálito impregnado de cachaça na boca do Juca, o exato momento em que pegou a faca. Sabia o que ia acontecer, segundos depois, minutos, horas, dias, anos depois. “Vou rasgar tua cara, vagabunda!”, repetiu ou disse pela primeira vez Juca, Eva não sabia ao certo. Como se tudo estivesse em câmera lenta, Eva pegou uma chave de fenda, daquelas compridas. Assim que recebeu o golpe de Juca em seu rosto, Eva enterrou a ferramenta no peito do namorado. “Você conseguiu mudar tudo, né, vagabunda?”, disse Juca sua última frase, já na verdade-epifania dos mortos.
Eva viu novamente um clarão. Desmaiou. Acordou estranhamente de pé, no sótão. Olhava-se no espelho. Usava bastante de seu tempo para ver aquele rosto que, apesar de tudo, desejava: a cicatriz feita pelo ex-namorado com uma faca de cozinha já não doía. Nem no rosto, nem na alma. Uma ínfima cicatriz assimétrica, até mesmo charmosa, transcorrendo o percurso entre a narina esquerda e o lábio superior. Também não doía sua consciência por ter enterrado uma chave de fenda no peito de Juca, tirando-lhe a vida. “Legítima defesa!”, repetia a si mesma. Legítima defesa de sua vida, sua honra, sua dignidade, seu universo.
Soneto doente
Caminha pela noite o peregrino
sem destino, vagueia, não se apressa.
Canta impossíveis tons em desafino
sua dor visceral que o corrói sem pressa.
Uma dor que parte as tripas e o peito
solitário do errante caminhante
que se perde em linhas retas. Direito
e esquerdo não existem nesse instante.
A náusea que não foi apresentada
o derruba sobre os papéis marcados
por tinta, sangue d’alma machucada.
Essa náusea, que os deixa separados,
ele, poeta, errante. Ela, inominada,
mulher, síntese de todos os fados.
sem destino, vagueia, não se apressa.
Canta impossíveis tons em desafino
sua dor visceral que o corrói sem pressa.
Uma dor que parte as tripas e o peito
solitário do errante caminhante
que se perde em linhas retas. Direito
e esquerdo não existem nesse instante.
A náusea que não foi apresentada
o derruba sobre os papéis marcados
por tinta, sangue d’alma machucada.
Essa náusea, que os deixa separados,
ele, poeta, errante. Ela, inominada,
mulher, síntese de todos os fados.
Fábio Pedro Racoski
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